Setembro, 19, 2018

Aos 13 anos, comecei a tocar violão. Gostava de RPM e rock nacional. Era afinado e gostava de cantar. O grupo vocal Nós & Voz ensaiava na minha casa, tinha primos e minha irmã Jussara que faziam parte do octeto. Ali tive, sem saber, as primeiras aulas de harmonia. Eles cantavam coisas de Jobim e Dori, uma maravilha. Fui aprender guitarra, já tinha ouvido Led Zeppelin, meu irmão tinha todos os discos do Queen. O Queen tinha guitarras, um vocalista gay gênio e também abria vozes. Eu também gostava de esportes! Já tinha treinado futebol, fui treinar vôlei, eu adorava, mas minhas unhas de violão quebravam no treino, acabei deixando pra lá essa aventura, mas aprendi coisas bonitas naquele tempo, disciplina, determinação, coisas que tem gente que acha que é só coisa de militar. Meu pai é militar. Minha familia sempre foi tradicional e maravilhosa. Conheci outras famílias heterodoxas, também maravilhosas. Meu irmão tinha amigos das artes visuais, todos fumavam maconha, e eram engraçados, divertidos, me tratavam com leveza. Meu cunhado era mais certinho, engenheiro, com um coração bom, me levava pro Mineirão com alegria sincera, tocava sambas de Cartola no violão. Quando fiz meu primeiro vestibular, fui estudar na PUC, Publicidade. Eram colegas da Zona Sul, diferentes da minha vizinhança da infância em Santa Tereza, e lá também fiz grandes amigos, conheci patricinhas, neo-hippies, algumas tidas como average people, muitas divertidas, belas e inteligentes. Quando larguei o curso e fui pra Música da UFMG, mergulhei no violão erudito, uma loucura boa. Depois descobri a alegria e o desafio do choro. Veio o bandolim, apresentado por minha namorada querida na época e depois futura esposa, que era bancária, nem de Sta Tereza nem da Serra, mas da Floresta. Fui a primeira vez pros EUA, morar no deserto do Arizona. Conheci cada peça rara, muitos deles mexicanos ilegais. Juntei os panos com uma norte-americana. Ótima pessoa, apesar de não conseguir cantar nenhuma música no tom, acreditem! Voltei dos States me achando, todo virtuose. Mas senti saudade da canção, fiquei anos me reconciliando com a arte de acompanhar o canto. Quando gravei os meus discos, achei que meu caminho era essa estética do violão brasileiro, que bebe de belas e várias fontes. A vida me levou a trabalhar como docente de uma Federal. Fui pra Ouro Preto. Me reconectei com uma juventude surpreendente de várias partes do interior do brasilzão, conheci colegas com outro olhar pra Música, uns mais, outros menos artistas, mas todos capazes, com algo forte pra dizer e tesouros pra ensinar. Me casei de novo, conheci as peculiaridades da tribo intensa e querida que habita o interior de sampa, da amorosa influência de Pamelli passei a ter a composição como um elemento do dia-a-dia, virei o pai mais feliz do mundo, voltei a tocar guitarra, estudar arranjo, passei a compor tambem. Trabalhei com muita gente legal e que amo até hoje, como Dea e Amaranto, da mpb canônica à música regional da terra mesmo. Voltei pros Estados Unidos, agora pra estudar composição! Passei a estudar serialismo, ao mesmo tempo tocando bandolim num grupo de choro. Fui dar aulas de percepção musical, sentado ao piano! Hoje trabalho no programa de jazz da universidade, e faço aulas de improvisação com um gênio do trompete! Ufa! Faço concertos de violão, dou palestras, toco em bares, às vezes cafés, convivo com o universo da erudição. Adoro escrever música, ler música, tenho passado dias na biblioteca pra aprender a ser pesquisador de verdade. Toco de ouvido, improviso. Toco em churrasco. Já toquei bêbado. Agora virei fitness. Muitos de meus amigos são gringos. Minha mulher é paulista, puxa o errrrre. Os gringos nem reparam que ela puxa o errrrre. Vocês acham que eu estou contando papo, esbanjando currículo? Nanão! Tudo que conto aqui não tem glamour, não é chique, eu não sou poderoso nem rico de grana, nem famoso que nem Yamandu! A labuta tá aí, firme todo dia. Mas a maior alegria e o negócio mais interessante que eu pude fazer e continuo fazendo foi me interessar por tanta música diferente, por vários instrumentos, por gente de tantas origens e lugares, gente certinha, gente marginalizada, gente que parece que é um trem e é outro, velhos, cerebrais, impulsivos, religiosos, libertários, ogros, sensíveis, homos, heteros, bis, da roça, yuppies, abastados, pé-rapados, ingênuos, arrogantes, humildes, limitados, criativos sem iniciativa, ativos sem novidade, gênios perdidos, medíocres de sucesso, e por aí vai... A gente tem que exercitar essa minha crença óbvia todo santo dia, e lutar com o que tem (não é só facebook, não, pessoal!) pra espalhar isso. Não temos que oprimir minorias, não devemos nutrir agressividade, nem contra quem acredita que isso é legal. Eu posso querer criar minha família de um jeito, mas não ficar bravo com a existência de outro tipo de família. Todo mundo tem pepino pra resolver. Não se aborreçam com o florescimento do politicamente correto, há razões históricas pra isso. E também quem parece careta demais talvez tenha limitações, não foi exposto a algumas coisas. Os descolados também tem limitações. Não riam dos religiosos, há pessoas legais em todas os credos. Todos seguem algum totem, mesmo que não saibam... Enfim, se estão querendo saber onde vou chegar, pega o pé e vai roendo, eu também não sei. Não vou concluir falando de política, não me sinto bem panfletando. Mas sei que tem uma turma que me segue, tem jovens que me escutam, agora que sou quase adulto. Pensem bem, galera! Tem coisa que a gente só valoriza quando não tem mais... Ê Minas!

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